Passamos muito tempo nos esforçando e às vezes deixando coisas boas e momentos agradáveis para trás na busca pelo aumento da produtividade. Ou, se o trabalho nos é penoso, gastamos tempo demais nos distraindo com coisas que nos divertem, sabotando assim nossa vida profissional.

Esses desajustes acontecem porque não sabemos integrar produtividade à diversão, pois não há atividade que seja tão produtiva quanto aquela que diverte seu praticante ao mesmo tempo e na mesma proporção em que este produz. Mas saber como organizar a vida nesses termos não é um conhecimento superficial, por isso a solução que a humanidade consagrou ao longo dos séculos foi o da autodisciplina.

Estruturando e seguindo uma agenda que separava horas para trabalho, horas para estudo, horas para diversão etc, equilibrávamos nossos dias, fazendo, muitas vezes, sem vontade, o que estava agendado. Isso diminuía bastante o risco de grandes colapsos em qualquer área da vida, mas causava certa irritabilidade.

Essa irritabilidade, agravada pelas mudanças advindas com a computação e pelo  aumento da competitividade no mercado de trabalho, trouxe uma série de problemas de saúde de origem psicossomática. Foi assim que, por volta dos anos 90, a palavra inglesa stress ficou popular entre nós.

O Problema Cresce

A partir dos anos 2000, os primeiros indivíduos da geração Y ou Millennials (da qual faço parte) começavam a entrar na vida adulta. Essa geração é filha da primeira geração que se rebelou contra as normas rígidas de organização da sociedade (geração X). Crescemos, portanto, com muita liberdade.

Naturalmente essa geração (e as posteriores, filha e neta desta) não se adaptou àquele modus operandi cartesiano de agenda e, por não conhecer outra forma de organizar a vida, continuou fazendo o que queria na hora que tinha vontade, mas com um agravante: sem precisar dar tantas satisfações aos pais, uma vez que já era crescida, embora ainda morasse com eles.

Como resultado, nossas vidas se tornaram desequilibradas: sem hora certa para irmos dormir, sem hora certa para almoçarmos etc. Enquanto isso, no mercado de trabalho, a competitividade não parava de crescer, e a exigência por currículos melhores só aumentava a pressão sobre nós.

Se a geração anterior teve problemas de estresse com uma pressão menor e uma vida relativamente organizada, o que poderíamos esperar de uma pressão maior sobre uma geração de vidas “bagunçadas” e pouco acostumadas a responsabilidades? No mínimo, um surto epidêmico de doenças psicológicas graves, e, de fato, é isso que temos observado desde então. O estresse constante e potencializado transformou-se em transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão etc.

Existe uma Solução

Grande parte de nós acredita que diversão e trabalho não funcionam juntos. Porém, se bem projetados, não só funcionam como o fazem em sinergia, potencializando um ao outro.

Embora seja melhor que o caos, dividir a semana, ou mesmo o dia, entre momento de trabalhar e momento de se divertir é perigoso, porque você acaba se conformando, por exemplo, a um trabalho não tão satisfatório. E, nas horas em que não está trabalhando, ao invés de concentrar parte de seus esforços para mudar de emprego ou de área de atuação, você está dizendo “sextou!” e “enfiando o pé na jaca” sexta, sábado e domingo, porque final de semana “não é hora de pensar em trabalho”.

Portanto, fazer de parte da sua vida um momento prazeroso esquecendo-se que tudo nela funciona em conjunto e que tudo, na verdade, deveria ser prazeroso é um erro. Por mais prazer que você tenha numa atividade específica e desprazer nas outras do seu dia a dia, não se apegue à primeira como escape destas. Em vez disso, aproveite a atividade prazerosa para recarregar suas baterias e voltar com toda a disposição para encarar as outras, sempre pensando em como executá-las de maneira menos chata ou substituí-las por outras melhores, aproveitando as oportunidades para agir nesse sentido.

Sextou nunca mais

Nossa vida não deve girar em torno de um hobby, dos finais de semana, ou mesmo de uma profissão que amemos. Devemos sempre focar no todo, melhorando a experiência de tudo o que não nos satisfaz em nossas vidas até que não haja mais diferença entre acordar no sábado ou na segunda-feira, até que o tal “sextou!” perca completamente o sentido para você.

Não encare isso como uma utopia. É perfeitamente possível. Sou game designer e autor do livro “O que os jogos de entretenimento têm que os educativos não têm“, no qual demonstro de forma objetiva e científica como projetar jogos educativos mais eficazes e, ao mesmo tempo, tão divertidos quanto os jogos de entretenimento. E o que isso tem a ver com o assunto? Tudo!

Após quase 10 anos trabalhando em projetos de jogos sérios (jogos cujo objetivo final é ensinar, vender ou desenvolver algo) para grandes empresas e marcas, aplicando o método que explico no livro, comecei a perceber que minha vida estava imitando a minha arte.

De tanto pensar como game designer e “engenheiro de produção” em tais projetos – criando experiências que tornam uma só coisa as ações de uma pessoa que está jogando e se divertindo e as que ela precisa para realizar um trabalho -, minhas decisões de vida passaram a seguir os mesmos padrões que guiavam minhas decisões projetuais.

Ao mesmo tempo, comparando minha vida com a que eu tinha 5 anos antes, percebi que estava mais feliz, bem disposto, menos estressado e, ao mesmo tempo, mais produtivo pessoal e profissionalmente. Isso me deixou intrigado, e me fez refletir e estudar melhor a questão para entender se a melhora na minha qualidade de vida tinha ou não relação causal com a reprodução, nas minhas decisões de vida, dos mesmos padrões de raciocínio que eu aplicava ao projetar jogos sérios.

Conhecimento é Poder

Após tais estudos – que podem ser apreciados neste Manifesto – a conclusão foi a de que realmente havia essa relação, e que ela era tão consistente quanto a que havia entre o meu método de projetar jogos sérios e as experiências proporcionadas pelos jogos sérios resultantes.

Essa descoberta me fez enxergar uma nova dimensão de importância para os conhecimentos de game design para jogos sérios, até então aplicados apenas na criação de tais jogos e na gamificação de escopos mais limitados, como plataformas de ensino à distância, rotinas de trabalho e aplicativos mobile para mudança de hábitos.

Tais conhecimentos agora mostraram-se eficazes para mudar vidas e até salvá-las, uma vez que o estilo de vida de muitas pessoas as tem levado a altos níveis de depressão e até ao suicídio. Sendo assim, esses conhecimentos já não podem pertencer apenas a game designers. Todas as pessoas devem poder aprendê-los e aplicá-los às suas próprias vidas.

Isso se torna ainda mais necessário se você pensar que, diferentemente de coaches psicólogos, nutricionistas e personal trainers, não há game designers capacitados e disponíveis para atender e ajudar as pessoas a reprojetarem os “jogos sérios” de suas vidas. Soma-se a isso a alta especificidade de cada caso: considerando apenas o “jogo da vida” de cada pessoa, não existem sequer dois projetos iguais e raramente se encontrará dois parecidos, porque ninguém é igual ao outro e os contextos sempre mudam também. Mudam os personagens, as habilidades, os recursos, o mapa, os desafios, os objetivos e até os gostos quanto ao que é ou não divertido.

Por tudo isso, foi que, em agosto do ano passado, criei este blog, onde procuro publicar artigos sobre game design para jogos sérios e sua aplicação à vida como um todo.

Também criei um perfil do blog no Instagram, onde compartilho insights, esboços e exemplos entre outros conteúdos. Nele, você também fica sabendo toda vez que um novo artigo é publicado aqui.

Integrando Diversão e Produtividade

Como uma pequena amostra para exemplificar o que estou falando, seguem 3 passos que considero básicos para tornar possível uma vida com diversão e produtividade organicamente integrados, e que fizeram e continuam fazendo parte do processo de gamificação da minha vida:

Passo 1: Identifique Seu Propósito de Vida

Já jogou algum jogo sem saber qual objetivo precisa alcançar para vencê-lo? Se sim, sabe que, nessas condições, você logo o abandona. Pode ser o melhor jogo do mundo, projetado sob medida para você, mas sem conhecer seu objetivo nele, você perde totalmente a vontade de jogar, porque tudo fica vazio de significado.

No jogo da vida, esse objetivo recebe o nome de “propósito de vida”. E, da mesma forma que nos jogos, se você não souber qual é o seu, trabalhar, estudar e outras atividades ficarão vazias de significado, perdendo a graça.

Portanto, saiba qual é o seu propósito de vida. Se você ainda não sabe, descubra-o o mais rápido possível. Para auxiliá-lo(a) nessa tarefa geralmente difícil e de autoconhecimento, converse com alguém, reflita, leia mais sobre o assunto. Para ajudar, deixo aqui um bom começo, o artigo:  Você sabe qual seu propósito de vida? Aprenda a viver plenamente!. Ele explica muito bem o que é e como fazer para identificar seu propósito de vida. Espero que lhe seja útil!

Vamos então para o segundo passo.

Passo 2: Retire toda sobra

Uma vez identificado o seu propósito de vida, todas as coisas ficarão mais interessantes, porque ganharão significado funcional, isto é, você saberá exatamente como cada coisa está colaborando para o seu sucesso nesse jogaço chamado vida!

Com essa clareza, o que você deve fazer agora é “enxugar sua vida, buscando retirar dela tudo o que permaneceu sem significado ou que o perdeu após a identificação do seu propósito. Isso nem sempre é fácil, porque envolve muitas vezes se afastar de pessoas, deixar vícios, mudar de profissão e tomar outras decisões tão difíceis quanto.

Por isso esse processo é, e deve ser mesmo, lento, com cada passo sendo muito bem pensado antes de ser dado.

Passo 3: Deixe só o supra-sumo

Paralelamente ao passo anterior, você deve maximizar o significado de cada elemento que vai permanecer na sua vida, atribuindo, a cada um dos que possuem pouco significado, pelo menos mais uma função que colabore para o seu propósito. A melhor forma de fazer isso é juntando dois ou mais desses elementos em um só.

Vou dar como exemplo uma situação da minha vida.

Eu preciso ir ao Centro da minha cidade, pelo menos uma vez por semana, onde coordeno uma pós-graduação. Eu ia e voltava de trem. Eram 2 horas do meu dia fazendo uma coisa que só tinha 1 função: me transportar de casa para o trabalho e vice-versa.

Isso porque o trem ia cheio e não dava para fazer mais nada, a não ser me segurar e me estressar com os vendedores ambulantes gritando e toda hora pedindo licença para passar onde não tinha mais espaço. O resultado era que eu chegava ao trabalho suado e estressado e, na volta, era o mesmo terror, porque eu saía do trabalho na hora do rush.

Por outro lado (visão do todo):

  • Eu tenho um carro que quase não uso, o qual gosto de dirigir ouvindo música, pois é uma atividade que me relaxa.
  • Gosto muito de um determinado bombom, mas quase não tenho tempo de sair para comprá-lo e saboreá-lo. 
  • Também gosto muito de ir a um lugar na Zona Sul onde há vários barzinhos que ficam bem movimentados às sextas, além de ter uma pizzaria que serve uma das melhores pizzas que já comi, mas moro na Zona Oeste e quase não passo por lá.

Todas essas três tarefas me são prazerosas e divertidas, mas isoladamente, cada uma delas teria pouco significado funcional em relação ao meu propósito de vida.

Mas conversei com minha chefia para mudar meu dia de trabalho para as sextas, achei um estacionamento próximo ao trabalho e, gastando um pouco mais por mês (o equivalente ao que eu gastaria saindo 3 noites no mês, o que dificilmente acontece), consegui unificar as três experiências prazerosas mais o transporte para o trabalho no Centro numa só experiência muito mais significante:

Vou de carro e chego em paz e limpo ao trabalho, como se tivesse acabado de sair do banho. Na volta, compro 3 bombons daqueles que eu gosto numa loja que fica no trajeto até o estacionamento. Pego o carro e vou no contrafluxo do engarrafamento, curtindo o ar condicionado, a música e os bombons até à Zona Sul. Chego em 10 minutos. Paro perto dos barzinhos, como minha pizza e conheço gente nova enquanto aguardo a hora do rush passar e o trânsito melhorar. Depois pego o meu carro novamente e volto para casa sem trânsito, relaxado e já de barriga cheia.

Ou seja, um tempo da minha vida que significava apenas transporte, continuou funcionando como tal, porém passando a significar também prazer e diversão funcionais. Sim, funcionais, porque estão colaborando com o meu propósito de vida. Como? Além da já mencionada função de transporte, colaboram alimentando-me (com a pizza e os chocolates que, 1 vez por semana, não fazem mal), livrando-me de horas improdutivas e estressantes num engarrafamento (ou num trem lotado), e aumentando as chances de eu fazer mais amigos, mais negócios e de conhecer minha futura esposa.

Note 5 coisas:

  • Só a diversão em si já seria funcional se eu precisasse me desestressar. Mas por minha vida já ser toda gamificada, este não seria o caso.
  • Só o fato de trocar o transporte desconfortável do trem por um transporte confortável puramente já valeria a pena se eu gastasse a mesma coisa ou só um pouquinho a mais de dinheiro e de tempo na segunda opção – embora o significado funcional permanecesse praticamente o mesmo. Mas, aumentando de 2 horas para 3,5 o tempo gasto toda sexta-feira nos traslados entre casa e trabalho (esperando o engarrafamento acabar), a nova experiência precisava me entregar mais valor, precisava ser mais significante em relação ao meu propósito. Por isso busquei integrar mais diversões funcionais – pizza gostosa (diverte e já substitui a janta) e conhecer gente nova (diverte e pode me valer uma amizade, um novo negócio e até uma esposa rs).
  • Além das coisas insignificantes, procuro sempre enxugar da minha vida aquelas que não são muito significantes, seja excluindo-as ou unificando-as numa só atividade que acumule seus significados. Isso colabora fortemente para que eu esteja alinhado ao famoso Princípio de Pareto ou regra 80/20.
  • Também procuro não deixar nem acrescentar algo à minha vida que seja só divertido ou só funcional. É claro que, a curto prazo, nem sempre isso é possível, mas mantendo essa intenção e com planejamento, a médio ou longo prazo é possível que sua vida se torne totalmente divertida e totalmente produtiva ou quase isso.
  • Vale ainda ressaltar como foi importante olhar para a vida como um todo para resolver o problema de uma pequena parte dela (as 2 horas pouco significativas e desconfortáveis das viagens de trem semanais), não perdendo assim qualquer detalhe que pudesse colaborar para a ressignificação da experiência.

Esses 3 passos que considero básicos para tornar uma vida 100% divertida e 100% produtiva têm base num conceito de game design conhecido como meaningful play, do livro Rules of Play: Game Design Fundamentals, de Katie Salen e Eric Zimmerman, e que possui versão em língua portuguesa disponível em quatro volumes.

Se você se interessa por esse tema, me siga em @leandrocosta.blog no Instagram para mantermos contato e trocarmos ideias a fim de promover cada vez mais a gamificação. Te espero lá!

Leandro Costa

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