O senso comum afirma que sem dor não há ganho, e todos nós costumamos ter essa crença em qualquer contexto. Mas no que tange a rotinas diárias ou semanais, a estilo de vida, na minha opinião, o correto seria no pain, more gain.

Essa ideia no pain, no gain serve mais para nos consolar quando estamos vivendo em rotinas pesadas ou para dramatizar e supervalorizar nossas conquistas, nos fazendo maiores do que de fato somos.

Não nego que precisemos nos esforçar, abrir mão de alguns prazeres e sermos disciplinados para conquistar coisas grandes. Contudo, quando se está fazendo a coisa certa na hora certa e da forma certa, todo esforço, abnegação e disciplina só parecem sacrificantes para os que olham de fora. Para os que “se sacrificam”, tais rotinas são, na verdade, um grande prazer.

E cá para nós, dentre aqueles que realmente voam nas alturas e por lá permanecem estáveis, não estão apenas os que tiveram seus caminhos até lá percorridos de forma dolorosa. Acredito até que estes sejam a exceção.

Geralmente observo que voa-se mais alto e por mais tempo quando o caminho da subida, embora envolva esforço, abnegação e disciplina, é, na realidade, uma diversão para os que o percorrem. Ou você nunca percebeu que aqueles que amam o que fazem são os mais bem-sucedidos?

Um jogador de futebol profissional de destaque, por exemplo, “sofre” nos treinamentos para manter seu alto desempenho, mas acorda todo dia empolgado para treinar e, quando a idade chega, reluta para deixar todo esse “sofrimento” e se aposentar.

Se a rotina de um atleta é sacrificante para ele, estando seu prazer e alegria apenas nos objetivos finais (vitórias e medalhas), é certo que esse atleta poderá até ganhar alguns campeonatos, mas não permanecerá performando em alto nível por muito tempo, nem esse nível chegará a ser alto o suficiente para lhe render uma medalha olímpica.

Onde eu quero chegar com esse papo? Quero chamar atenção para o fato que quanto mais contrária à sua vontade for sua rotina, mais físico e psicologicamente desgastado você viverá e menor será o ganho pelo qual você a suporta. .

Não quero dizer com isso que viver na zona de conforto seja a situação mais produtiva. Mesmo porque quem faz o que ama quer fazê-lo cada vez melhor. Assim está sempre experimentando novas formas de fazer e aperfeiçoando sua arte, o que significa frequentes visitas à zona de desconforto. Também não estou dizendo que não haja momentos na vida em que seja mais sábio suportar uma rotina dolorosa por um certo período de tempo.

O que precisamos entender é que não devemos nos conformar com uma rotina desgastante, pensando que é, por meio dela, que um dia alcançaremos nossos sonhos e, enfim, seremos felizes.

Como mostrei em nosso manifesto, a vida é análoga aos jogos que, por sua vez, são réplicas reduzidas dos diversos modos de vida que há para escolhermos viver. Assim como existem jogos diferentes para agradar a pessoas diferentes, também há modos de vida diferentes.

Você sabia que o game designer estuda um público e projeta um jogo para ele, definindo algumas mecânicas e testando-as com pessoas desse público?  E que a cada teste, ele recebe feedback dessas pessoas que o permite refinar, alterar ou trocar completamente essas mecânicas por outras mais adequadas à diversão delas?

Meu convite é para que você seja um(a) game designer e que adeque o jogo da sua vida a você mesmo(a). Afinal você é a única pessoa do público-alvo desse jogo, pois ninguém mais pode jogá-lo além de você (ninguém vai viver a sua vida por você). Portanto teste as mecânicas da sua rotina ao longo do dia (ou semana), observando os feedbacks do seu corpo e alma. Faça os ajustes necessários e possíveis no final de cada ciclo e parta para o playtest do dia (ou semana) seguinte.

Com algum tempo de playtests e ajustes, sua vida ficará, ao mesmo tempo, mais leve, divertida e produtiva. Também pode ser que você perceba que está jogando o jogo de outras pessoas, e assim parta para experimentar novas mecânicas. Com perseverança, você vai encontrar um jogo que é só seu.

Quando isso acontecer, você vai experimentar na vida real o que sempre experimentou nos jogos mais divertidos que já jogou: a alegria e o prazer serão presentes no durante, e não apenas nos finais com vitória. Os desafios serão fontes de prazer, e não de preocupação e estresse. E as tristezas ou dores deixarão de fazer parte da rotina para se mostrarem somente nos finais das partidas perdidas, afinal sabemos que ninguém nasce um exímio jogador e vez ou outra vamos errar alguns movimentos. Mas até nessas horas, é possível se alegrar com o aprendizado obtido na experiência e se animar para jogar novamente, desta vez mais preparado.

Lembre-se: ninguém mais além de você pode jogar o jogo da sua vida. E ele é tão seu quanto as suas digitais, pois, ao contrário dos videogames que são projetados para divertir muitas pessoas, o seu foi refinado especialmente para uma única pessoa: você.

Com isso você vai relaxar e aproveitar ainda mais as paisagens do caminho, porquanto se dará conta de que vencer na vida não está relacionado a comparar sua performance com a de outros, já que os outros não jogam o mesmo jogo que você. Vencer será uma questão apenas de ser melhor que você mesmo(a) a cada dia, semana, mês ou ano, dependendo de como seja o seu jogo.

Como diz a música de Marcelo Jeneci, felicidade será só questão de ser, e quem pode ser mais produtivo que uma pessoa feliz e em paz?

Leandro Costa

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